Meu Livro

Trechos do meu livro: Transgênero em Número e Grau

 

 
 
 
 
 
 
 
 

                                       ...ORAÇÃO ...

 

 

 

Tudo que eu quero é sobreviver e ao mesmo tempo viver da forma mais intensa que eu puder

eu só peço ao meu Deus que nos proteja sempre da violência e da intolerância 

e que um dia agente possa acordar de manhã e nunca mais ouvir essas estatísticas assustadoras na tv

que o arrependimento caia sobre as mentes dos mal intencionados mesmo antes do ato 

que as pessoas se vejam iguais e valorizem-se em equivalência

que a fome,a pobreza,a desigualdade social, não mais corrompam o caráter dos seres 

e sim sirva de estopim para acender a chama de se vencer com dignidade sim, mesmo que isso seja de barriga vazia

e que o sangue continue a verter-se apenas involuntariamente das mulheres

que ele não seja extraído dos nossos corpos á força,sobre forma animal ou predadora 

e que nasçamos de novo todos os dias dentro de nós mesmos, e cada dia melhores...

 
 
 
 
                                              Chelsea j. blair
                                 ****************************
 
 
 

Esse é o "resumo de uma história" onde a dor e o alívio andaram sempre de mãos dadas

 

Mas que enfim me trará a satisfação

Absoluta em escrevê-la e compartilhá-la.

 

Já que eu sempre quis falar pro mundo sobre mim,

e acho que é interessante pra mim enquanto eu

mesma e pra mim mesma

 

Despretensiosamente escrevo sobre a minha vida, 

 

e acho até uma ousadia querer falar "nisso"

 

Mas sou ousada mesmo, sempre fui e não consigo

mudar, nem sei se é necessário

 

 

Peço desculpas se for difícil pra você

compreender o meu pobre português autodidata,

mas espero que me entenda.

 
 
 
 
 

Pequena, um nada no mundo talvez,

 

Eu tiro a minha roupa prá você aqui 

 

 

E desnuda em meu pequeno mundo,

 

 

Sentada na cama do hotel onde vivo há 4 anos

 

 

Sem maquiagem

 

Debruço aqui nessa história a minha realidade

 

cruel mas que foi necessária;

 

Sofrer a dor do corpo prá elevar-me ao cume do

equilíbrio humano

 

 

Não necessariamente sempre nessa ordem,

"sofrer" e "elevar" se tornaram para mim 

 

 

Os verbos que me conjugam no que sou...

 
 
 
 

No meu caso se eu tivesse tido a "opção"

escolheria ser mulher

 

Nunca existiu dúvida na minha cabeça quanto a isso

 

Embora ser homem pra mim sempre foi a

 

possibilidade de reencontro com o meu corpo 

 

físico e com a obviedade da natureza humana

 

Nunca me interessou nenhum pouco ter barba ou

ficar calvo como meu pai

 

 

Quando eu era criança eu tratava meu corpo

 

exatamente como minha irmã tratava o dela

 

Eu ficava olhando ela pentear os seus lindos e

 

longos cabelos negros quando ia se deitar, que ao

 

adormecer eu sonhava que eram meus

 

 

Até o momento em que minha mãe me convidava,

 

obrigando a me sentar e os cortava rente a cabeça

 

E com uma tesoura de costura ela podava meus

 

sonhos pela raiz, rsrssrrs

 

Mas meus cabelos cortados como os de um menino

 

não me impedia de brincar com os espelhos da casa

 

Que refletia a imagem mentirosa e incondizente

 

com a realidade

 

Que deixava a minha cabeça de cabelos curtos 

 

cheia de dúvidas

 

E assim vestida como um menino eu organizava

 

meus livrinhos numa mochila feita de retalhos

 

confeccionada pela minha própria mãe e partia

 

logo cedo pra escola

 

Com as pernas trêmulas de medo de enfrentar o

 

meu dia tenso de estudos

 

Já que o tratamento dos meus "colegas" de classe

 

não era dos mais simpáticos

 

Desde quando perceberam meu "jeito diferente"

de ser

 

E era difícil digerir a didática da professora uma

 

vez que eu sabia que o recreio estava por vir

 

E o lanche quase sempre se tornava indigesto

 

depois de ouvir do colega na fila do lanche: "vou te

 

pegar lá fora seu viadinho!"

 

Repetentes na escola, já quase homens feitos,

 

ganhavam de mim em tamanho e força

 

Mas não em inteligência

 

E quando eu chegava em casa mais cedo, minha

 

mãe perguntava se havia faltado algum professor

 

na escola

 

E caladinha eu apanhava com uma vara

 

previamente preparada pra isso por ter saído

 

antes do fim da aula

 

Com o uniforme cheio de lama e rasgados pelos

 

meus colegas

 

Com o tempo eu aprendi com eles mesmos a me

 

respeitar e a respeitar as pessoas

 

Já que eu não desejava aquela forma que eu era

 

tratada nem prá um cachorro de rua

 

Logo minha mãe percebeu minha diferença entre

 

eles e a forma que me tratavam então começou a

 

comprar a briga e me defender

 

Mas eu também usava a força que o meu corpo

 

físico me propunha e conseguia a cada dia que

 

passava e a cada ano, lutar pelo meu espaço usando

 

minhas próprias mãos

 

As cicatrizes no meu corpo foram se acumulando e

 

com o tempo eu aprendi a honrá-las e sentir

 

orgulho delas

 

E conseguia crescer mais forte na angustiante

 

chegada a adolescência

 

Cheia de dúvidas sobre minha própria sexualidade

 

 

Eu era aclamada pelos diretores da escola como a

 

melhor aluna da classe

 

 

Onde eu aprendia a cada dia que passava que eu

 

poderia opinar sim

 

Entre agir e viver como os meus colegas

 

repetentes

 

Ou ser apenas eu mesma e permitir me ser

 

educada

 

E assim ser mais feliz na vida...

 

 

Eu tive uma adolescência bastante tensa já que

 

nos anos 80 ninguém queria comer viado

 

A AIDS começava a se alastrar pelo mundo e as

 

imagens do Cazuza se definhando sobre uma cama

 

chocavam e educavam as pessoas pra não comerem

 

viado porquê éramos no momento,

 

estatisticamente, senão o único, o maior grupo de

 

risco

 

 

Com a separação dos meus pais eu tive que

 

aprender rápido a me virar sozinha na vida

 

E foi muito difícil, pois eu era muito dependente

 

da minha mãe pra tudo e muito apegada a ela

 

Já que sempre havia feito de tudo pra nos dar o

 

que comer

 

 

Ela trabalhava de doméstica e sustentava a casa

 

com um salário miserável e nos alimentava com os 

 

 

restos de comida que trazia das casas onde

 

trabalhava

 

 

Foi quando ela se envolveu com um marginal,

 

bêbado e drogado

 

E tudo mudou

 

Acho que ela havia se cansado de tudo

 

De cuidar de mim e dos meus cinco irmãos

 

De se virar como podia pra isso.

 

Talvez nem ela mesma soubesse onde estava se

 

metendo quando se envolveu com aquele homem

 

Ela queria se livrar de algo que a incomodava

 

dentro de casa por certo

 

E pensou que aquela seria a melhor forma pra isso.

 

Esse homem destruiu nossas vidas, fazendo minha

 

mãe vender a casa onde morávamos e fugir com ele

 

pra onde ninguém nunca chegou a saber

 

Durante meses ficamos na triste expectativa de

 

um contato, numa situação de abandono e desamor

 

que mudaria pra sempre o destino dos seis irmãos

 

 

Eu ainda era adolescente e não compreendia muito

 

bem naquela época o que estava acontecendo

 

O meu pai começou a nos deixar aos poucos

 

Mesmo vivendo sob o mesmo teto

 

Que teríamos um mês pra abandonar pois já havia

 

sido vendido

 

Sentíamos fome e não podíamos fazer nada além

 

de ir buscar por isso das mais diferentes formas

 

Nos saciávamos com chá de folhas colhidas no

 

quintal e bolachas de água e sal

 

 

Eu tinha um amigo que morava ao lado de casa e

 

acompanhava todo o drama da minha família e

 

conseguiu um emprego pra mim num restaurante

 

muito chique da cidade

 

Seis meses depois fomos morar juntos

 

E aos 15 anos eu já pagava meu próprio aluguel e

 

me virava sozinha como podia

 

Esse cara me ensinou muita coisa na vida, ele era

 

alguns anos mais velho que eu e tinha uma história

 

parecida com a minha

 

De abandono e luta pela sobrevivência

 

Éramos uma espécie de namoradinhos e vivíamos 

 

de aluguel num barraco de quatro cômodos, num

 

bairro simples da cidade

 

Onde eu comecei a aprender que não era fácil ser

 

adulto

 

Quando se tinha 15 anos de idade.

 

 

 

Após alguns meses minha mãe voltou

 

Sem o homem que a tirou de casa e a fez se

 

desfazer do nosso lar

 

Sem dinheiro

 

Humilhada, mas disposta a recomeçar

 

E a reunir de novo a família destruída...

 

E fomos tentar juntos e livres de rancores a

 

reconstruir tudo de novo...

 

 

Com ataques constantes, ameaças de morte e

 

violência do meu padrasto

 

Que voltara a perseguir minha mãe com o intuito

 

de destruí-la aos poucos por tê-lo abandonado

 

 

 

Cresci sem muitos relacionamentos em meio a

 

miséria da vida que levava

 

Vendo minhas irmãs, que eram lindas e gostosonas

 

 usando o próprio corpo pra defender nosso almoço

 

de cada dia

 

Transando com os ricos da cidade em troca de

 

algum dinheiro prá nos dar uma vida melhor

 

Eu trabalhava dia e noite no restaurante pra

 

ganhar meio salário mínimo por mês e algumas

 

sobras de alimentos

 

Já que não era nem gostosa , nem linda

 

Vivemos durante muitos anos de nossas vidas no

 

limite da sub-existência humana

 

Tomando banho numa privada improvisada de lata

 

e tirando água num poço artesiano

 

Morando num barraco de tábua feito pela minha

 

mãe e meu padrasto viciado em drogas e álcool,

 

que chegava tarde quebrando o portão e batendo

 

em todo mundo que encontrava pela frente

 

Eu não aceitava aquela condição em que vivíamos

 

mas como eu poderia mudar o rumo da história, se

 

minha cabeça já estava superlotada de questões

 

pessoais e existenciais ?

 

Minha mente envelhecia rápido, pois se passavam

 

milhões de coisas dentro dela

 

Gay, pobre, sem perspectivas de futuro, nem ao

 

menos vontade de viver ou acordar no dia seguinte

 

Eu caminhava de encontro a morte, via minha mãe

 

sofrendo ao lado de um bêbado estúpido e

 

violento, minhas irmãs se prostituindo pra nos

 

sustentar

 

Eu queria morrer aos 17, mas felizmente não fui

 

corajosa o bastante pra isso.

 

 

 
 

E em meio ao temporal avassalador da minha

 

condição social e humana

 

A minha alma pequena e descrente levitava aos

 

ventos e me mostrava o mundo visto por cima e

 

aos poucos me fazia começar a acreditar em mim

 

mesma,e a aceitar a minha condição limitada pelo

 

ambiente no qual eu havia crescido

 

E começava a entender que precisava ser

 

reeducada ,

 

Afinal de contas , eu sobrevivera até ali, havia

 

passado por tanta coisa ruim na vida e não seria

 

,e eu nem queria mais o fim

 

Conheci o teatro através de um amigo que vivia em

 

condições semelhantes a minha

 

Um menino pobre, gay, que passava fome ás vezes

 

 como eu e mesmo assim tratava a vida com o

 

respeito milionário da fé no dia seguinte

 

A "escola municipal de teatro" de Anápolis (GO)

 

me abrigava a qualquer momento do dia em que eu

 

quisesse exercitar deixar de" ser eu", me

 

transportar para o corpo de um personagem rico e

 

poderoso ou me deixar ser possuída por qualquer

 

um que eu desejasse ser

 

Eu crescia então, interpretando a mim mesma e

 

sendo construída novamente pela possibilidade da

 

transição, e levava pra vida real os desejos de

 

lutar pela própria vontade de se gostar, se

 

conhecer e se respeitar

 

Eu agora fazia parte de um grupo de pessoas de

 

níveis culturais e sociais muito variados , mas

 

unidos pela mesma vontade de se encontrar

 

consigo próprio e se desprender de fatores e

 

valores conseqüenciais e determinantes

 

Dando possibilidade a si mesmo de perder o medo

 

do óbvio e do inevitável

 

no caso a minha própria vida;

 

Agora eu tinha vontade de acordar viva no dia

 

seguinte e enfrentar o mundo lá fora

 

Eu aprendia aos poucos a ver que a vida me propôs

 

a condição e me deu a opção de aceitar ou não

 

E assim eu almoçava e jantava Carlos Drummond

 

de Andrade que me fez entender na própria pele

 

que a "a dor é inevitável,mas o sofrimento é

 

opcional"

 

 

 
 
 

Eu tinha apenas vinte e poucos anos e parecia já

 

ter vivido cinqüenta

 

A pobreza e a miséria me ensinava que a fome

 

passava com macarrão instantâneo

 

E dinheiro pra isso eu conseguia chupando um

 

caminhoneiro sujo no posto de combustíveis na

 

saída da cidade

 

Mas a fome de uma vida digna de um ser humano

 

continuava a corroer minha alma

 

Continuava indo todo dia a noite pro posto de

 

combustíveis e quando estava com muita sorte ,

 

trazia 30,00 , 40,00 reais pra casa

 

E isso já me fazia dormir melhor pois tinha a

 

certeza que no dia seguinte eu comeria carne( de segunda), pra economizar no almoço

 

Um dia quando estava chupando um caminhoneiro,

 

vomitei no seu colo todo e ele me bateu com um

 

facão enorme na cara , me fez comer o vômito

 

todo e me colocou pra fora do caminhão a socos

 

Fui pra casa sem um real na bolsa, chorando sem

 

parar e toda machucada, principalmente no rosto

 

Me cansei daquilo tudo e comecei a fazer um curso

 

de cabeleireira no SESI (GO)

 

Indo e vindo todos os dias a pé , andando cerca de

 

uns 22 kilômetros

 

Com muito custo minha mãe me ajudava na

 

mensalidade , investindo naquilo que começaria a

 

mudar nossas vidas

 

Trabalhei durante anos a 50% pra uma senhora

 

que me adorava e praticamente me adotou

 

Cuidava de mim como se eu fosse sua filha

 

Me vestindo e alimentando

 

Me tornei uma profissional em cabelos e consegui

 

muitas clientes fiéis

 

Ganhava ainda muito pouco , mas já dava pra

 

comer bem melhor ,comprar e fazer as coisas que

 

eu sempre tive vontade

 

Pagava a mensalidade das minhas aulas de inglês e

 

continuava com minhas aulas de teatro

 

Mas eu queria mais, aquela sandália que custava

 

quase 2.000.00 na vitrine da Carmen Stevens,

 

jamais caberia no meu orçamento

 

Eu sonhava com ela, passava na frente da loja todo

 

dia e olhava pra ela

 

Um belo dia ela não estava mais lá

 

E mesmo entendendo a impossibilidade ,entrei em

 

desespero

 

E até chorei por não poder tê-la nos meus pés

 

Eu precisava ganhar mais dinheiro , eu precisava ir

 

buscar por isso

 

E fui...

 

 

 

Fiz minha mala e fui pra Brasília com todos os

 

meus sonhos dentro dela listados um a um numa

 

folha de papel de caderno, e sem uma linha sequer

 

em branco

 

Eu trabalhava de dia no salão e a noite ia pra

 

Taguatinga fazer ponto na rua

 

Mas a cafetinagem absurda e o abuso de alguns

 

policiais militares me fizeram desistir logo do

 

planalto

 

Um dia estávamos eu e minhas amigas conversando

 

ao lado de uma banca de jornal, na madrugada e de

 

repente uma viatura da policia militar para e nos

 

coloca em posição de revista

 

Éramos umas seis meninas mais ou menos , e todas

 

já de costas

 

Eles começaram a nos tratar por pronomes

 

masculinos o tempo todo

 

Riam e faziam muita piada

 

Eles nos faziam perguntas e quando respondíamos

 

diziam imediatamente : cale a boca!!!, seguido de

 

um tapão na cabeça

 

Usavam palavras tão ofensivas que não pareciam

 

ser policiais

 

Estávamos de costas pra bandidos naquele

 

momento

 

A mercê da banda pobre da autoridade

 

Eles batiam com tanta força nas costas da gente 

 

que chorávamos de dor

 

Eles tinham uma seringa enorme cheia de

 

excrementos fecais e mijo de latrina,

 

Misturado a creolina

 

Aquilo era jogado no corpo da gente ,e nos cabelos,

 

de cada uma de nós

 

As palavras ofensivas naquele momento não eram

 

nada diante da humilhante situação em que nos

 

encontrávamos

 

Nos mandaram ir embora dando chutes e

 

cacetadas .

 

Sujas, com sérios ferimentos no corpo, e sem

 

razão nenhuma, nenhuma mesmo

 

Voltei pro salão onde eu trabalhava e dormia

 

Mas nesse dia não dormi pensando nas palavras que

 

eu ouvi daqueles homens transtornados 

 

,intolerantes e homofóbicos

 

Uma amiga me ligou logo cedo me dizendo que ia

 

embora pra belo horizonte, ela tinha família lá, e

 

havíamos nos tornado grandes amigas

 

Ela estava em choque com aquilo tudo , e dizia que

 

se eu quisesse poderia ir com ela

 

Eu a respondi com uma pergunta: vamos embora

 

agora?

 

 

 

No meu primeiro dia em BH , minha amiga deu uma

 

saída enquanto eu descansava no hotel onde nos

 

hospedamos ,e no meio da noite eu ouço gritos

 

vindos do corredor dizendo: vai embora agora!

 

Abro a porta do quarto e constato que era com

 

minha amiga que o porteiro falava

 

 

Ela teria incomodado os clientes após ter

 

consumido drogas e álcool

 

Descobri mais tarde que ela era viciada em crack

 

e bebia muito

 

E como morro de medo de dormir no mesmo quarto

 

de quem usou drogas

 

Logo tive que me virar sozinha em belo horizonte,

 

pois essa droga era muito comum entre quase

 

todas as meninas da noite

 

Então fui morar no bairro Bonfim , na casa de uma

 

senhora que acolhia meninas que vinham de outros

 

lugares

 

Era um bairro antigo, com ruas de paralelepípedos,

 

casas muito antigas e que me fascinava pela sua

 

própria história ,"Hilda furacão" vivera ali num

 

casarão onde eu visitei e ficava tentando me

 

transportar pra época já que o ambiente

 

proporcionava essa sensação

 

Toda a riqueza e luxo que antes predominava

 

naquele lugar que hoje é corroído pelo tempo e

 

abrigo de drogados, fazia parte agora apenas da

 

lembrança dos personagens que viveram ali, e que

 

me contavam com riqueza de detalhes

 

Foi ali naquele lugar onde descobri a podridão e a

 

sujeira da vida

 

 

Eu tinha que conviver lado a lado com pessoas

 

viciadas em crack e outras drogas que tomara

 

conta do lugar

 

Era difícil pra mim que nunca tinha visto alguém

 

sob o efeito desastroso e amedrontador da droga

 

A maioria dos clientes eram usuários ativos e

 

insistiam pra que eu usasse junto com eles, mas eu

 

resistia

 

Lembrava sempre da minha mãe, ligava pra ela e

 

pedia pra tomar conta de mim em pensamentos e

 

orações

 

Um dia fui convidada a me apresentar para um

 

cliente da casa

 

Rico , drogado , e com desejos sujos e incomuns

 

Me avaliou como se eu fosse um cavalo à venda

 

E já foi dizendo: você é perfeita!, eu quero você!

 

Ele tirou um pacote de dinheiro e colocou em cima da mesa

 

Separou um pouco e me deu, sem contar o valor

 

Ele continuava me fazendo perguntas enquanto eu

 

suava frio contando as notas novas que caiam das

 

minhas mãos de tão surpresa e nervosa que eu estava

 

Afinal eu nunca tinha tocado em tanto dinheiro na vida

 

Sorri e fingi que havia entendido tudo o que ele me disse

 

No quarto, logo de cara eu vi que teria que fazer por merecer

 

Um valor tão alto pelo o que eu pensava que seria 

 

um simples programa...

 

Enquanto ele preparava os instrumentos que o

 

auxiliaria no uso do crack

 

Eu me impressionava com sua habilidade e

 

paciência em prepará-los

 

Cuidadosamente ele furava uma lata de cerveja

 

usando o próprio lacre

 

E muito educado me pediu pra ascender vários

 

cigarros pra produzir cinzas

 

Eu não estava entendendo nada daquilo mas

procurava fazer exatamente tudo o que me pedia

 

Ainda de terno e gravata ,sentado na cama antiga

 

de madeira, suando a testa me pediu o isqueiro

 

Segurando a lata com uma mão e o isqueiro com a

 

outra me pediu que o chupasse

 

Enquanto isso eu ficava tonta com a fumaça fedida

 

que ele produzia ao inspirar e expirar várias vezes

 

, sugando e prendendo a respiração

 

A TV estava ligada e ele me pediu pra desligar e

levantou-se de repente

 

Certificou-se de que a porta estava fechada e isso

 

durou o tempo todo

 

Parecia estar sendo perseguido e tentava tapar

 

todos os buracos que via pela frente

 

Fiquei muito assustada com aquilo e o chamei pra cama

 

Ele fez um sinal pra que eu ficasse em silêncio

 

E olhava fixamente pra um ponto no chão

 

E fazia isso abaixando-se como se estivesse

 

procurando algo muito pequeno

 

Eu continuava deitada na cama e ele veio e se

 

sentou ao meu lado

 

Me pediu pra que pegasse a lata e o

 

entregasse,falando bem baixinho, quase

 

sussurrando

 

Ele suava muito e queria que eu fumasse aquilo ,

 

trazendo a lata até a minha boca

 

Eu o agradeci trêmula e muito tensa: não, eu nunca

fiz isso

 

Ele disse: só uma vez, vai!

 

Eu agradeci novamente e ele continuava a fumar

sozinho

 

Tirou a roupa e perguntou se eu tinha lubrificante

 

íntimo

 

Eu não tinha, e ele me pediu pra ir comprar ao lado

 

e fui

 

No caminho eu chorava sem parar com medo sei lá,

 

aquele cara estava tão estranho e parecia ser 

 

louco

 

Eu não sabia o que estava por vir e isso me deixava

 

muito tensa

 

Eu nunca tinha pego um cliente que usasse crack ,

 

e o comportamento dele me causava uma aflição

 

enorme, misturada com o medo das suas reações

 

 

Chegando no quarto depois de esperar uns cinco

 

minutos ele abre a porta

 

E me pediu novamente pra pegar um wisk pra ele

 

com a dona da casa

 

Quando voltei ele me pediu pra que enfiasse a mão

 

nele

 

E fui fazendo assustada com a facilidade que ela

 

entrava no seu cu

 

Pediu pra enfiar as duas e assim o fiz

 

Aquilo me deixou horrorizada mas me dava a

 

sensação de que agora eu estava fazendo um

 

programa com um cliente

 

Dentre outras coisas me pediu pra cagar nele, na boca e no corpo

 

Eu disse que não estava com vontade mas mesmo

 

assim ficava o tempo todo me pedindo isso

 

Eu mijei várias vezes na sua boca e ele tomava

 

tudo , tudo mesmo

 

Mas ele queria mais sujeira, parecia não se contentar

 

Levantou-se rapidamente, pegou um monte de

 

dinheiro no bolso do seu terno, jogou na cama e

 

disse: deixa eu cagar em você?...

 

 

 

 

 

 

Eu demorei alguns segundos pra responder ,

 

paralisada com a quantidade de notas de cem ali

 

sobre aquele lençol sujo

 

E como quem já soubesse qual seria minha

 

resposta

 

Ele nem fez força e já foi cagando na própria mão

 

e me lambuzando toda de merda , eu tentava

 

proteger o dinheiro que eu nunca tinha visto tanto,

 

sem me incomodar muito com a sujeira que ele

 

fazia

 

Nesse momento eu já estava comendo merda e

 

pedindo mais, tentando fazer tudo o que ele

 

mandava e tentando ser a puta que ele procurava

 

Ele comia aquilo com fome mesmo, e me dava

 

beijos sujos na boca

 

Depois de nos sujar muito fomos pro banho e ele

 

pediu que mijasse na sua boca e assim o fiz,

 

naquela altura eu estava tão interada na situação

 

que o pedia que fizesse o mesmo comigo

 

Ficamos um bom tempo no banheiro o que deixaria

 

meus joelhos com cicatrizes profundas durante

 

semanas de chupá-lo em baixo do chuveiro

 

No outro dia eu estava exausta e fiquei surpresa

 

quando dona da casa me chamou pra me dar um

 

presente

 

Mais dinheiro que ele havia deixado pra mim

 

Eu nem sabia o que dizer, ninguém nunca havia me

 

pago tanto por um programa

 

Eu queria gritar, sair correndo dali direto pro

 

melhor salão de beleza da cidade , queria me

 

sentir rica

 

Fui fazer compras e mandar o primeiro "bom

 

dinheiro" pra minha mãe

 

Que sabia da procedência da grana, mas como

 

sempre só pedia pra eu tomar cuidado e não me 

 

envolver com drogas

 

Todas as minhas colegas já sabiam que eu tinha

 

saído com o melhor cliente da casa e ficaram

 

minhas amigas íntimas, já que segundo a dona da

 

casa não era comum ele se interessar por alguma

 

menina que morava ali

 

Eu me senti mal ao ouvir a história da Natália, uma

 

travesti bem senhora já, que havia ganhado muito

 

dinheiro desse cliente e hoje estava drogada e

 

jogada pelas calçadas sujas do bairro, mendigando

 

moedas pra se drogar

 

Eu a via sentada ali naquela calçada e me colocava

 

no seu lugar

 

Um dia eu fui conversar com ela mas ela era de

 

poucas palavras e muito grossa

 

Eu queria ajudá-la mas acho que ela já havia se

 

acostumado com aquela situação , me tratou muito

 

mal e fiquei na minha

 

As meninas diziam que ela era muito rica, ganhava

 

muito dinheiro pois era muito bonita

 

E ficou louca após perder tudo pras drogas

 

Diziam que o tal cliente milionário que eu havia

 

saído tinha deixado ela viciada em crack

 

Havia lhe dado o céu e o inferno , mas ela preferiu

 

o prazer das drogas

 

E se perdeu na vida ,se desfazendo de tudo o que

tinha.

 

 

Eu aprendi muito ali naquele lugar,

 

No bairro Bonfim,um bairro de ladeiras íngremes,

 

ruas escuras e estreitas, da grande BH

 

Foi onde eu comecei a gostar de fazer as coisas

 

sujas que uma vadia de rua precisa saber pra

 

ganhar dinheiro 

 

Foi onde eu aprendi que pra subir na vida como uma puta

 

Eu não podia ser simplesmente mais uma puta e

 

sim " a puta"

 

 

 

********************************************

 

São Paulo ainda era um sonho distante pra mim,

 

pois as histórias que eu ouvia falar da vida da

 

prostituição de rua aqui não eram muito

 

animadoras

 

Naquela época a cafetinagem predominava e

 

haviam perseguições constantes por parte das

 

próprias travestis por briga de ponto e

 

pagamentos de diárias

 

 

 

Eu sempre fui muito medrosa e apenas sonhava em

 

um dia fazer plásticas no rosto e ficar com a cara

 

daquelas transsex que faziam show no Silvio

 

santos,srsrrs

 

Eu queria ter um corpo mais feminino, um rosto

 

mais harmonioso

 

Mas era impossível fazendo programinhas de

 

50,00 reais a hora , isso quando o cliente era

 

generoso, pois a média geral era bem menos

 

Aos trinta e três anos eu ainda não tinha nem

 

próteses de silicone no peito e isso em são Paulo

 

significava no mínimo ser um pouco mais bem paga

 

pelos programas e melhor recebida por minhas

 

colegas de trabalho

 

 

 

Já que eu teria que trabalhar lado a lado com as

 

transexuais lindas e bem tratadas, aquelas que

 

apareciam na TV ás vezes

 

 

 

Eu não poderia chegar num lugar onde eu não

 

estivesse á altura da concorrência

 

Eu estava com uma grana que eu nunca tive na vida,

 

tinha medo , mas tinha a necessidade de provar

 

pra mim mesma que eu era capaz de vir pra são

 

Paulo e conseguir sobreviver e tudo e a todos

 

E dormia todos os dias pensando nisso...

 

Acordei um dia e disse pra dona da casa : eu tenho

 

dinheiro agora e quero virar uma travesti de

 

verdade, preciso ir pra são Paulo.

 

Ela gostava muito de mim, me tratava como a uma

 

filha e sentiu muito quando logo fui pegando

 

minhas malas, decidida

 

Eu não tinha conta em banco pois nunca tive

 

dinheiro,e sai de belo horizonte com toda aquela

 

grana que havia ganhado dentro de uma camisinha

 

e introduzida no cu

 

 
 

Naquele momento era a única forma que eu

 

encontrei de proteger meu dinheirinho suado 

 

O dinheiro que daria o pontapé inicial na minha

 

transformação física

 

E ajudaria a me manter em são Paulo por certo

 

tempo, até me estabilizar

 

O meu cu nunca custara tão caro, os 8.000.00 em

 

notas de cem e de cinqüenta só me atrapalhavam

 

um pouco ao andar 

 

 

Ao passo que me ajudariam a dar o meu primeiro

 

grande salto na vida

 

Mas não me incomodava nenhum pouco ser

 

estuprada pelos meus "sonhos"

 

 

Eu queria era chegar logo ao "Grand finale"! Rsrrsrsrrs...

 

 

 

De Belo Horizonte á São Paulo...

 

 

 

 

Eu chegava enfim á são Paulo com minha mala de

 

 

sonhos impossíveis... Sozinha e com medo do que

 

eu iria enfrentar

 

Eu optei por procurar a dona Elizete , uma senhora

 

que alugava apartamentos a preços baixos e dava

 

"proteção" ás travestis para que pudessem

 

trabalhar em qualquer lugar de SP, sem ter que

 

pagar a "diária" absurda e ilegalmente cobrada por

 

alguns cafetões que comandavam a prostituição

 

Meus primeiros dias em SP não foram melzinho na

 

chupeta como eu achei que seriam por ter grana

 

pra sobreviver algum tempo, eu teria longos meses

 

de luta intensa contra a máfia predominantemente

 

ilegal da cafetinagem e da extorsão

 

Que não queriam nem saber se eu era "filha",

 

(nome dado as meninas que moravam nos

 

apartamentos que ela alugava) da dona Elizete ou

 

não,

 

Já chegavam dando socos e perguntando: você é

 

filha de quem?

 

Antes de responder eu já havia levado alguns

 

safanões e muitos tapas na cara

 

Eu via que eu teria que lutar pelo meu espaço

 

sozinha e não poderia confiar na tal "proteção" que

 

me seria dada

 

Sempre após esses ataques súbitos e freqüentes

 

de extorsão eu ia embora pra casa chorando e com

 

muitas dúvidas acerca da minha adaptação e

 

permanência em são Paulo

 

Eu não me via tendo que "pagar rua" pra alguém

 

que eu nem conhecia pra poder ficar num ponto

 

trabalhando,eu achava isso absurdo

 

E eu não entendia como aquilo podia ser tão comum

 

numa cidade como São Paulo

 

Onde uma viatura de polícia passava a cada minuto

 

e era monitorada 24 horas por dia por câmeras

 

 

 

Durante meses eu tive que "fugir" dos ataques

 

desses cafetões, me escondendo e trabalhando

 

numa tensão enorme, sempre esperando o pior

 

O "malhação" era um desses cafetões abusados,

 

ele parava o carro e cobrava a "diária" sempre

 

empunhando uma arma

 

Eu desenvolvi uma defesa de ficar sempre calada e

 

mesmo na mira dele , sair como se não tivesse

 

falando comigo e ir me afastando de perto do

 

carro

 

Já que eu trabalhava no centro de SP, numa rua muito iluminada e cheia de câmeras de segurança , eu não acreditava que ele atiraria em mim ali ou um dia descesse do carro pra me bater ou fazer algo comigo

 

 

 

Eu estava errada em pensar assim...

 

 
 

Eu já estava com 33 anos e não era considerada

 

uma travesti pelas minhas colegas de rua ,eu nunca

 

havia passado por nenhuma cirurgia plástica, não

 

tinha próteses de seios, nem silicone no corpo, só

 

tinha um rosto de beleza exótica e a vontade de

 

ganhar dinheiro, o que incomodou um pouco uma

 

travesti operada que logo começou a me ofender,

 

dizendo que eu era um "viadinho", que pra ser

 

travesti era preciso ter passado por cirurgiões, e

 

que não bastava ter o cabelos grandes e uma cara

 

linda

 

E assim ela me ensinou com uma tesoura encostada

 

no meu pescoço que realmente eu teria que mudar

 

meu corpo, se quisesse respeito perante as outras

 

"se quiser trabalhar aqui vai ter que se

 

plastificar" disse ela com a tesoura cada vez mais

 

próxima do meu rosto

 

Eu comecei a gritar e dizer: porque não me corta logo?

 

Eu estou aqui, vai corta o meu rosto e mostra o

 

quanto se incomoda com minha beleza, não tenho

 

plásticas mas ainda assim sou linda!, eu disse

 

 

convicta

 

Comecei ali a ficar abusada e a ir contra esses

 

ataques que foram ficando cada vez mais

 

freqüentes

 

Eu estava lutando agora contra os cafetões e

 

contra minhas próprias colegas de trabalho

 

Estava muito difícil querer ter vontade de ir

 

trabalhar no outro dia e pedi ajuda a dona Elizete

 

Que mandou um dos seu empregados intervir por

 

mim e deixar claro que eu iria ficar lá sim, e que

 

eu podia "descer"(trabalhar em um certo ponto)

 

em qualquer lugar de SP

 

Mas mesmo assim como eu estava sempre sozinha ,

 

um belo dia me mandaram o "doce"( mal

 

encomendado pelo inimigo para destruir ou

 

desfigurar alguém )

 

 

 

*************************************************

 

 

 

Eu estava distraída ouvindo música , com um fone

 

no ouvido

 

De repente levo uma rasteira e caio no chão sendo

 

socada por dois homens enormes e bombados

 

 

 

A intenção era destruir o meu rosto e os meus

 

cabelos

 

Levei vários socos e chutes de um deles

 

 

 

Enquanto o outro me segurava me deixando sem reação

 

Eu nem sabia porque estava apanhando

 

E nem conseguia fugir pois logo no primeiro soco

 

O meu nariz sangrava tanto que o sangue tomava conta dos meus olhos

 

Me cegando e me sufocando

 

Fui pro hospital levada por uma amiga que ficou o tempo todo comigo

 

Eu não conseguia chorar nem esboçar qualquer reação

 

Eu estava em choque,e com muito medo de morrer

 

longe da minha família

 

No outro dia quando acordei o meu rosto estava

 

inchado e todo machucado

 

Meu nariz foi quebrado e tinha um corte horrível na testa

 

Passei alguns dias em casa querendo voltar pra

 

Goiás mas eu jamais voltaria derrotada pra lá,

 

apenas com as marcas no rosto

 

Eu não tinha vindo prá são Paulo buscar só isso

 

O meu orgulho falou mais alto

 

Fiquei e depois de alguns dias eu estava pronta pra outra

 

Eu tinha um pouco de dinheiro ainda e resolvi

 

 

acompanhar uma amiga até uma clínica de cirurgia

 

plástica em Moema

 

Fiz o orçamento do que eu gastaria prá colocar

 

próteses nos seios e 

 

Refazer o meu nariz já que havia ficado

 

deformado com a surra que levei

 

Fiquei assustada com o valor quase gratuito

 

As cirurgias foram marcadas já pro dia seguinte

 

Sem exames prévios nem qualquer outro tipo de 

 

avaliação médica

 

Mesmo assim,eu cheguei uma hora antes, ansiosa ...

 

 

 
************************************
 
 
 

Duas semanas depois das cirurgias eu havia me

 

transformado enfim

 

Numa travesti de verdade( já que pra ser

 

"travesti de verdade", na leitura equivocada da

 

grande massa é: ter próteses de silicone pelo

 

corpo e ficar com o nariz de manequim de vitrine)

 

 

 

Eu me sentia um monstro, foi um grande choque

 

entre eu e eu mesma me ver no espelho após ter

 

passado por duas cirurgias em um espaço tão curto

 

de tempo

 

Eu chorava , não me reconhecendo e querendo

 

voltar a ser eu

 

Mas já era tarde, eu teria que aprender a me

 

acostumar agora com meu novo rosto , ou

 

enlouquecer de vez

 

Eu chorei muito e precisei da ajuda de um

 

profissional muito competente que estava ao meu

 

lado sempre e me ajudou a vencer meu medo e meu

 

arrependimento de ter me transformado naquela

 

que um dia seria a puta "chelsea"

 

 

E me traria grandes realizações na vida, embora

 

naquele momento dentro de mim,eu ainda fosse

 

apenas o menino gay e pobre do interior querendo

 

esquecer o passado e vencer a educação

 

preconceituosa e limitada que me impuseram

 

O meu novo corpo esculpido a bisturis e tesouras

 

chamava atenção ao ir comprar pão na padaria da

 

esquina

 

Um mendigo que estava deitado na porta me

 

chamou pela primeira vez na vida de: gostosa!!!

 

Cheguei em casa, tomei meu café rapidinho e fui

 

tentar ouvir mais alguns pronomes femininos na rua

 

Enfim eu era uma mulher gostosa!, me desejavam

 

como nunca haviam me desejado

 

Os homens me comiam com os olhos

 

E não fui chamada nenhuma vez de "viadinho filha da puta"

 

Eu nascia de novo, num novo corpo

 

Começava a me sentir bonita, atraente...

 

 

 

****************************

 

 

 

Confiante e fisicamente á altura das minhas

 

colegas de trabalho, logo na primeira noite eu me

 

surpreendo com as palavras de uma delas:

 

 

 

Disse que eu era muito abusada, havia chegado

 

"ontem",não pagava rua pra ninguém, e já estava

 

toda "feita"(o que se diz da travesti que faz

 

plásticas)

 

Então eu fui bem curta e grossa com ela: eu disse

 

a ela que eu não havia vindo pra são Paulo dar

 

dinheiro pra cafetões , muito menos regredir na

 

vida me drogando

 

Eu nunca "pagaria rua pra" nenhum desocupado e

 

aproveitador mesmo porque á aquela altura da

 

minha vida eu não estava nem aí se entrassem

 

numas comigo, pois já havia comido o pão que o

 

diabo amassou pra estar ali, e estava pronta pro

 

que der vier,

 

Ela ficou um pouco ofendida com isso, notei no seu

 

olhar fulminantemente irado e odioso

 

E disse: muito abusada a "senhora" querida!

 

Eu disse: não, sou apenas mais uma nessa esquina,

 

lutando pelos meus sonhos...

 

Não demorou muito pra que algumas meninas que

 

estavam ali há anos e não tinham conseguido nada

 

na vida,se revoltassem contra mim, pois deixavam

 

se ser engolidas pelo monstro impiedoso das 

 

drogas, e mal conseguiam comprar uma sandália

 

nova

 

Eu era a puta da vez, os homens faziam fila pra

 

ficar comigo e isso incomodava algumas meninas

 

Logo veio o segundo "doce"...

 

O "malhação" era o cafetão mais temido da área,

 

ele comandava o centro de são Paulo e fazia e

 

acontecia com as trans do pedaço

 

Ele parou um dia ao meu lado no seu carro e

 

perguntou o meu nome :

 

Eu disse já com tom irônico : João(nome que ele

 

adorava batizar as suas vítimas), e eu já sabendo

 

disso me aproveitei pra dar ênfase ao tenso

 

assunto que se seguira

 

Você é filha de quem?: ele disse,

 

Da minha mãe, eu respondi olhando nos seus olhos 

 

Depois de alguns segundos de silêncio ele disse:

 

sexta-feira eu quero 1000,00

 

Eu disse: tremendo por dentro, tudo bem , estarei

 

aqui, pode vir pegar o dinheiro

 

Quando o sinal abriu ele arrancou o carro e no

 

meio do caminho disparou dois tiros não sei pra

 

que direção

 

Como um sinal, um aviso de que ele não estava de

 

brincadeira

 

Aguardei naquela sexta-feira , na esquina ,

 

trabalhando sempre tensa e sempre com medo e

 

esperando o pior

 

Resolvi procurar a polícia respeitando meus

 

próprios instintos e indo contra os conselhos das

 

minhas colegas

 

Já que várias meninas já haviam sido mortas,

 

escalpeladas e espancadas por ele

 

Eu não poderia ficar calada

 

Ele nunca veio buscar o dinheiro, nunca mais o vi ,

 

ele já sabia o quanto eu não o temia

 

Um mês e pouco depois , noutro carro ele para e

 

me diz: você vai morrer viado desgraçado!...

 

Alguns dias, semanas , meses se passaram e nunca

 

mais o vi, um certo tempo depois, assistindo a um

 

telejornal , um sorriso involuntário surgiu no meu

 

rosto ao ver uma notícia:

 

" o cafetão mais temido do centro de são Paulo,

 

 

(o malhação) foi morto essa noite após trocar

 

tiros com a polícia"

 

Descobri ali quem ele era realmente e que era

 

procurado não só em SP,ele tinha uma vasta ficha

 

criminal não só por cafetinagem , mas por vários

 

outros crimes, inclusive assassinatos e roubos a

 

mão armada em outros estados

 

 

 

Tive um sono mais tranqüilo aquele dia...

 

Era desesperador ter que trabalhar esperando

 

alguém que te jurou de morte, eu nunca desejaria

 

o mal pra ninguém, mas acredito que colhe-se oque

 

se planta, e nesse caso vejo que a morte lhe tenha

 

feito bem

 

 

 

Enfim, após ter ganhado a luta era pra

 

permanecer ali naquele ponto, onde cada

 

centímetro era concorrido pelas mais lindas e

 

famosas transexuais de SP

 

Consegui um certo "respeito" depois das cirurgias

 

plásticas que fiz e era até elogiada por elas já que

 

não era sempre nem comum que uma trans

 

chegasse em são Paulo, nas condições em que eu

 

cheguei e "crescesse" tão rápido

 

 

 

Fui ficando conhecida e sempre era chamada pra

 

fazer trabalhos paralelos como

 

Fotos pra revistas e filmes pornô,

 

Com o tempo eu atraia o olhar faminto dos homens

 

que passavam ali e dos gringos que se hospedavam

 

de férias em são Paulo e queriam conhecer a

 

"chelsea"

 

A atriz pornô que engole uma mão com o cu, come

 

merda, bebe xixi, trepa sem camisinha e gosta de

 

homem sujo

 

 

 

 

 

 

Eu sempre quis ser a melhor puta trans do mundo

 

e faço isso não só pelo dinheiro

 

Eu faço porque gosto de exceder a minha

 

capacidade física mesmo

 

No quarto com um cliente ,transformo o meu corpo

 

num multiprocessador de sensações e de desejos 

 

Ás vezes o cliente me manda embora porquê não

 

agüenta mais foder, eu não consigo parar de "

 

querer"

 

Eu não sei oque acontece comigo

 

Eu sinto um tesão incomum, eu adoro estar perto de um macho

 

Sou capaz de implorá-lo pra não ir embora, chego a chorar por isso até

 

Eu quero sexo, sentir o cheiro do corpo suado dele

 

Me satisfaço ao ouví-lo dizer: eu não aguento mais chelsea!

 

Me pedindo por favor, pra deixá-lo ir embora?, rsrsssrs...

 

Eu nunca tive relacionamentos duradouros na vida ,

 

e sempre tive dificuldade em conseguir um

 

namorado "fixo"

 

Os homens sempre se assustaram com o tipo de

 

sexo que eu gosto e que me dá prazer

 

Ás vezes no meio de uma relação proponho o meu

 

parceiro a fazer xixi em mim e ele trava , fica com

 

medo sei lá,srsrssr

 

Talvez pense que eu não vou ter limites e pedir

 

algo mais diferente ainda

 

Ou peça pra ele cagar na minha cara , e

 

dependendo do meu tezão vou pedir sim,rsrsrs

 

E isso os deixa muitooooooo assustados,

 

rsrssrssrsrsrs

 

Eu já fui abandonada no meio da transa por um

 

cara por pedir pra ele peidar na minha boca,rssrs

 

Ele nunca imaginava que eu pudesse pedir isso a ele

 

Antes me chamava de "anjinho lindo"," meu

 

amorzinho"

 

Depois que o propus a peidar e mijar em mim

 

Quase não encontrava palavrões no seu vocabulário

 

e me chamava de "nojenta", "suja" e etc...

 

Ele vestia a roupa como quem quisesse fugir o mais

 

rápido possível do quarto

 

E fugiu, nunca mais o vi

 

Ele apenas me ligou pra desejar boa sorte e que eu

 

encontrasse alguém que curtisse toda aquela

 

"sujeira", srsrsrsrss

 

Só fiquei triste por não beber o xixi dele nem

 

sentir o peido saindo daquela bundona malhada e

 

entrando na minha boca...

 

 

 

 

A sujeira e o incomum me atraem...

 
 
 

Eu não sei explicar como?, nem quando?, comecei a

 

sentir tezão por esse tipo de sexo sujo e sem limites

 

Na verdade só comecei a praticá-lo depois dos 30

 

Antes disso eu repreendia minhas vontades ao

 

máximo como se fosse "pecado"

 

Eu tinha vergonha de propor aos meus parceiros

 

com medo do que pensariam de mim e de suas

 

reações

 

E depois dos 30, eu vi que só se é realmente feliz

 

na vida quando nossa própria vontade é respeitada

 

em primeiro lugar

 

Aprendi que quem deveria se adaptar ao meu

 

estilo eram os meus parceiros e não eu ao estilo 

 

deles

 

Eu redescobri o meu tezão tão logo comecei a agir assim

 

 

 

Eu fui educada a vida inteira pra não me relacionar

 

de forma alguma com pessoas acima do peso

 

(gordos) ,ou negras por serem

 

preconceituosamente e indignamente associ

 

adas respectivamente a padrões de estética e

 

marginalidade,mas meu corpo não aprendeu a lição

 

de casa...

 

 

 

 

 

Os negros me atraem com seus lábios grossos e

 

suas mãos de palmas brancas me arrepia a pele ao

 

senti-las sobre o meu corpo

 

 

 

Os gordinhos me fazem ir a loucura com suas

 

virilhas marcadas pelo roçar constante de uma

 

perna na outra e suas barrigas enormes e flácidas ...

 

 

 

Os suores do corpo de um homem também me dão

 

um tezão fora do comum

 

Eu adoro fazer um oral num cara ás seis da tarde

 

depois que ele saiu do trabalho com o pau todo

 

melado e fedido

 

Ou lamber sua bunda peluda com cheiro de suor e de cu sujo...

 

 

 

 

 

Eu sempre senti muito tezão em cheiro de gente,

 

Desde muito pequena já era atraída pelos odores

 

dos homens

 

Suas axilas ,

 

virilhas,pés,cabelos,pênis,bundas,bocas

 

Cada pedacinho do corpo de um macho me deixava

 

atiçada

 

E como referência

 

Eu adorava cheirar as cuecas do meu pai e suas

 

botas sujas que ele deixava no banheiro após

 

chegar do trabalho

 

E isso me causava problemas as vezes quando

 

alguém percebia

 

E eram problemas físicos e psicológicos graves, já

 

que nem eu mesma entendia porque eu gostava daquilo

 

Eu me masturbava frequentemente cheirando as

 

cuecas do meu pai

 

Que era mecânico de automóveis

 

E o cheiro de gasolina misturados com o suor me

 

levavam a orgasmos inacreditáveis aos 12\13 anos

 

de idade

 

Eu adorava tomar banho com ele e vê-lo se esfregar com gana

 

O seu corpo sujo de graxa

 

Eu me ensaboava com a espuma preta que escorria

 

do corpo dele e milhões de pensamentos sujos se

 

passavam pela minha cabeça nessa hora

 

O meu corpo de criança não absorvia as

 

informações confusas que eu recebia da minha

 

mente facilmente fecundável e podre

 

Eu enlouquecia aos poucos e precipitada de vez os

 

meus conceitos sexuais quase já pré-definidos

 

E muito precocemente o meu corpo desobedecia a

 

ordem natural das coisas

 

 

 

Eu sofria muito com tudo isso na minha

 

adolescência

 

Eu queria não sentir tezão em homem mas era

 

impossível lutar contra isso

 

Me masturbava várias vezes por dia pensando em

 

dar o cu e chupar um pau

 

Perdi a conta de quantos objetos introduzia no

 

meu cu cheirando as cuecas do meu pai

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde que cheguei em São Paulo há uns cinco anos

 

 

Todas as coisas que vivi aqui me fizeram melhor ,

 

me deixaram me fazer entender e ser entendida

 

Eu descobri muita gente igual a mim , que pensam

 

como eu e que gostam de sexo sem restrição e

 

sem "isso ou aquilo não pode"

 

Nascer numa cidade do interior e ser educada lá

 

me fez ver isso muito tarde eu acho

 

Eu comecei a "ficar louca" com trinta e poucos

 

anos de idade

 

E isso foi muito rápido e intenso por ter demorado

 

tanto tempo pra acontecer

 

 

Deixar de dizer as coisas que eu tinha vontade de

 

dizer e não poder fazer as coisas que eu queria

 

fazer aos 20 anos de idade

 

Por causa de toda repressão da época e até por

 

 

respeito mesmo a minha família

 

Me fizeram isso que sou hoje talvez

 

Um veículo sem freio e com tanque cheio...

 

 Depois dos trinta anos de idade eu perdi o medo

 

de experimentar a tudo o que pode ser mortal

 

nesse mundo

 

Eu nunca quis viver até os 80 anos, e se viver eu

 

não quero olhar pra traz e ver que não fiz tudo o

 

que eu tive vontade de fazer com o meu corpo de 30.

 

 

 

 

 

Eu não posso me lembrar mas, quando eu era um

 

espermatozóide devo ter brigado tanto pra ser

“alguém”, mais que qualquer outro concorrente ao

 

meu lado,rsrsrsrr

 

 

 

E deve ter sido bem difícil conseguir abrigo no

 

ventre da minha mãe pois tive alguns problemas

 

pra nascer “mais ou menos" saudável

 

 
 

Tenho renite aguda,nasci com bronquite

 

crônica,"desvio sexual" ...(patologia da suposição

 

)rssrssss

 

 

 

Algumas das minhas doenças consigo tratar com

 

 

um arsenal de remédios que consigo comprar sem

 

 

receita médica, outras,não me causam tanto

 

incômodo ou dor,me fazem bem até,

 

 

 

Ter nascido pobre,e numa cidade do interior me

 

fez entender que não há remédio pra tudo nessa

 

vida,

 

 

 

Arroz e feijão se compra com dinheiro,sem

 

receita médica,sem burocracia ,basta tê-lo,srss

 

Talvez de todas as dores que eu senti ,essa tenha sido a mais cruel

 

 

Eu não entendi até hoje porquê se luta tanto,

 

trabalha-se tanto pra “conseguir” vencer na vida

 

 

Porquê que, pra ter um lugar pra se morar nesse

 

“nosso” mundo é preciso pagar tão caro? comprar o

 

que deus deu, juntar as moedas pra se comprar o

 

metro quadrado

 

 

Do que já é meu...

 

Eu sinto saudades do país que me negou comida

 

quando sentia fome e não me deu abrigo quando eu

 

tinha frio

 

Quando eu era pequena não desgrudava da barra

 

da saia da minha mãe e todo dia eu a esperava

 

chorando e ansiosa pela chegada dela do serviço

 

de empregada doméstica

 

Eu chegava da escola e ia pro ponto de ônibus onde

 

ela descia e me desmanchava em lágrimas ao vê-la,

 

simplesmente porquê ela estava ali, do meu lado,

 

me sentia enfim protegida de tudo...

 

 

Até hoje ainda sou bastante carente de "mãe",

 

mas a vida me levou a entender que preciso ser

 

forte o suficiente pra encarar o mundo sozinha e

 

que ela não estará sempre ali pra me defender dos

 

ataques constantes dos meus colegas de classe na

 

fila do lanche,ou no caminho de volta prá casa...

 

 

Eu sinto saudades disso tudo, por mais sádico e

 

traumatizante que tenha sido

 

 

Hoje eu estou aqui em outro país,não tem ataques

 

homofóbicos, nem pedradas na cara,me alimento

 

bem, moro bem, mas também não tem ponto de

 

ônibus, não tem mãe, não tem afeto...

 

Eu cheguei em são Paulo cheia de sonhos, e como

 

já relatei não foi fácil permanecer

 

 

É bastante tenso estar numa rua na madrugada

 

esperando um cliente passar,te escolher e te

 

pagar

 

 

Toda àquela exposição ali te põe num limite quase

 

insustentável de resistência

 

 

Esperar e perceber o cliente te dar uma deixa

 

qualquer de que te deseja,tendo do lado de

 

dezenas de outras transexuais lindas e jovens já é

 

bastante aflitivo

 

 

 

E considerando-se a noite de São Paulo um leque

 

 

de opções, preços, belezas raríssimas e de nível

 

reconhecido internacionalmente

 

 

 

Não é tão fácil conquistar seu lugar ao sol...

 

 

 

 

Eu não consegui dinheiro o suficiente em SP pra

 

comprar minha casa,que era e é até hoje minha

 

meta principal na vida

 

 

 

Eu fiz algum dinheiro sim, mas não o suficiente pra isso

 

E olha que eu me entreguei á minha profissão ali,rsrsrs

 

Trabalhava duro das 22:00 ás 6:00 da manhã,

 

todos os dias, sem folga

 

Minhas amigas iam pra balada ás sextas e sábados

 

e já nem me convidavam mais pois já sabiam que eu

 

 não iria

 

 

Estava focada no meu sonho da casa própria mais

 

que nunca...

 

Eu cheguei em são Paulo cheia de sonhos, e como

 

já relatei não foi fácil permanecer

 

 

É bastante tenso estar numa rua na madrugada

 

esperando um cliente passar,te escolher e te

 

pagar

 

 

Toda àquela exposição ali te põe num limite quase

 

insustentável de resistência

 

 

Esperar e perceber o cliente te dar uma deixa

 

qualquer de que te deseja,tendo do lado de

 

dezenas de outras transexuais lindas e jovens já é

 

bastante aflitivo

 

 

E considerando-se a noite de são Paulo um leque de

 

opções, preços, belezas raríssimas e de nível

 

reconhecido internacionalmente

 

 

Não é tão fácil conquistar seu lugar ao sol...

 

 

Eu não consegui dinheiro o suficiente em SP pra

 

comprar minha casa, que era e é até hoje minha

 

 

meta principal na vida

 

Eu fiz algum dinheiro sim, mas não o suficiente pra

 

isso

 

 

E olha que eu me entreguei á minha profissão

 

ali,rsrsrs

 

 

Trabalhava duro das 22:00 ás 6:00 da manhã,

 

todos os dias,sem folga

 

 

Minhas amigas iam pra balada ás sextas e sábados

 

e já nem me convidavam mais pois já sabiam que eu

 

 não iria

 

 

Estava focada no meu sonho da casa própria mais

 

que nunca...

 

 

Aos trinta e oito anos da minha vida percebo que

 

devia ter tomado certas atitudes enquanto mais

 

nova

 

 

Acho que sou um pouco descrente, demoro a

 

perceber o caminho certo a ser tomado, mais que

 

outras pessoas

 

 

Talvez o meu passado de sofrimento e traumas

 

tenha parte nisso,nessa forma de encarar a vida

 

sem pretensões imediatas

 

 

Acho que ainda espero minha mãe no ponto de

 

ônibus até hoje pra me dar a mão e me levar pra

 

casa...

 

 

 

 

Eu dependo muito de impulsos externos pra me

 

mover, até hoje ainda não consegui auto-

 

sustentação suficiente pra definir os

 

planos para o meu futuro,e acho que vou ser

 

sempre assim,desenhar no meu subconsciente a

 

pré-materialização do meu dia seguinte é uma lição

 

de casa que eu não concluí